Em alusão ao Dia Internacional dos Povos Indígenas, comemorado no dia 9 de agosto, a Rede CEJA, da Fundação Cecierj, promoveu uma semana de ações voltadas à valorização e ao resgate dos saberes e das tradições dos povos originários, destacando a pluralidade cultural que constrói a identidade do país. Como parte dessa programação especial, o CEJA Casa do Marinheiro, na Penha, realizou, na última sexta-feira (13/08) a oficina “Etnografismo e Matemática’.

A atividade, ministrada pela professora de Artes Giselle Leal, com a colaboração dos professores de Matemática Gilce Pereira e Renato Abreu, ofereceu aos participantes uma imersão prática nas ricas manifestações visuais indígenas, demonstrando como a estética e lógica visual dos povos nativos carrega em si uma profunda ciência espacial e geométrica repleta de significados.

Arte e matemática se encontraram nas mãos dos alunos. A professora Giselle Leal conduziu a oficina ao lado dos professores Gilce Pereira e Renato Abreu, mostrando que os saberes indígenas cabem em cada traço, cada forma e cada olhar. Foto: Flávio Carvalho

Durante a atividade, todos puderam observar como conceitos matemáticos como geometria, simetria, proporção, rotação e reflexão estruturam os padrões e grafismos ancestrais. A abordagem contribuiu também para desmistificar o ensino das exatas, mostrando que a matemática não se limita aos livros didáticos ou às fórmulas abstratas, mas faz parte na cultura, no design, na arte e no cotidiano de diferentes civilizações.

“Nesta semana em que celebramos os povos originários e falamos sobre crenças e costumes e cultura dos indígenas, decidimos promover esta oficina, junto com dois professores de matemática da unidade. O objetivo foi abordar, no ambiente educacional, do que se trata todo o grafismo indígena, com o uso da geometria em linhas, formas, simetria e sua relação com a matemática”, afirma Gisele Leal.

A diretora do CEJA Casa do Marinheiro, Mônica Paradela, falou sobre a importância da abordagem do tema. “Em sua atividade regular e também ao comemorar datas especiais, a Rede CEJA tem o cuidado de buscar assuntos que despertem o interesse do aluno e os traz para a sua prática cotidiana, para sua realidade. Então decidimos unir o tema dos povos originários com a matemática. Porque a maioria vê a disciplina com a mentalidade da aula clássica, dos números, de algo considerado difícil… Então mostramos aqui que a matemática também é leve, também é arte. E ela está em tudo, está inserida na cultura, desde os povos originários, do nosso Brasil e no mundo”, afirmou.

Durante a programação especial em alusão ao Dia Internacional dos Povos Indígenas, os estudantes exploraram a pluralidade cultural que constrói a identidade do país por meio de atividades práticas e reflexivas. Foto: Flávio Carvalho

Dinâmica que virou arte

Durante a atividade, os participantes foram convidados a criar individualmente uma pintura em folhas secas de amendoeira, recolhidas após caírem naturalmente das árvores. Foi a hora de todos darem asas à imaginação e caprichar em círculos, colmeias, grafismos das mais variadas formas, criando peças únicas e exclusivas. O resultado foi uma profusão de estilos, dentro do tema abordado, já que cada etnia indígena utiliza de modo diferente esses elementos.

“Todos os grafismos têm um significado. Um cocar, por exemplo, se é produzido com 50 penas vermelhas de arara em uma determinada etnia, precisa ter realmente 50. E as penas são recolhidas da natureza, não retiradas do pássaro. Então tudo precisa ter um propósito, não é algo produzido de forma aleatória. Por isso é preciso respeito a essas culturas e costumes, não usá-las como somente como folclore. Os padrões são inspirados na natureza, na fauna e na flora. Uma cobra inspira o desenho de uma linha sinuosa, assim como os rios; os traços no casco do jabuti são reproduzidos na pintura, assim como as colmeias, entre tantos outros elementos”, explicou Giselle Leal.

Tinta, folha e memória: a arte produzida na oficina ‘Etnografismo e Matemática’ ganhou vida nova nas mãos de uma pequena participante. Foto: Flávio Carvalho

Orientadora educacional do CEJA Casa do Marinheiro, a professora de Português Ana Cristina Rosito, considerou a iniciativa necessária e surpreendente. “Participar dessa oficina que uniu arte e matemática foi muito importante por vários motivos. Primeiro eu fiquei curiosa em entender como as disciplinas estariam juntas, porque, de um modo geral, a gente pensa sempre que matemática é exatas e arte, já é a área da linguagem. Então me surpreendi positivamente, pois vemos que a matemática está em todos os lugares Como também sou escritora, vou inclusive fazer um poema para colocar no papel toda essa emoção de ter participado da atividade”, comentou.

A oficina “Etnografismo e Matemática” reuniu alunos do CEJA Casa do Marinheiro, na Penha, para um mergulho nos saberes indígenas e sua relação com o conhecimento matemático. Foto: Flávio Carvalho

Com a oficina “Etnografismo e Matemática”. o CEJA Casa do Marinheiro mostrou, de forma prática, atrativa e dinâmica, que a matemática não está restrita aos livros ou aos cálculos. Ela também está presente na arte, na cultura, na natureza e nos conhecimentos construídos por diferentes povos ao longo das gerações. Nesse sentido, a iniciativa contribuiu para ampliar o olhar dos estudantes sobre a relação entre conhecimento científico, expressão artística e saberes ancestrais.