Evento gratuito integrou a programação da 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia
A participação das mulheres na produção do conhecimento científico e artístico, historicamente marcada por processos de invisibilização foi tema do seminário Arte e Ciência: Diálogos Possíveis — Mulheres, Arte e Ciência: Substantivos Feministas, que aconteceu nos dias 20 e 21 de outubro, no Museu Nacional de Belas Artes, no Centro do Rio de Janeiro. O evento foi promovido pela Fundação Cecierj, em parceria com o museu, integrando a programação da 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que tem como tema “Ciência delas”.
A iniciativa propôs um espaço de reflexão e diálogo sobre as desigualdades de gênero e de raça na construção do conhecimento, reunindo discussões que atravessam a produção científica, as artes e a memória. A programação incluiu mesas de debate, oficinas práticas e uma visita mediada à exposição As Abolicionistas brasileiras, em cartaz no museu.

Elymara Cardoso (Fundação Cecierj), Márvila Araújo, Carolina Assis (Museu Ciência e Vida/Cecierj) e Nayla Oliveira (MUHCAB) debatem durante o seminário “Arte e Ciência: Diálogos Possíveis”, no MNBA. Foto: Flávio Carvalho
Na abertura do evento, a chefe do Departamento de Ciência, Arte e Cultura da Fundação Cecierj, Thelma Lopes Gardair, enalteceu a parceria com o MNBA. “A Fundação Cecierj é uma instituição voltada para a valorização da educação pública, da divulgação científica e dos serviços públicos. Essa parceria é muito importante porque temos esse objetivo em comum, que é de prestar um serviço de qualidade à população, entendendo que, tanto ciência quanto arte, são gêneros de primeira necessidade. A ciência, por seu aspecto concreto, inclusive na manutenção da vida, não tem seu papel questionado. E muitas vezes a gente se questiona sobre a função da arte. Então é uma reflexão importante: buscar estabelecer esse diálogo entre arte e ciência”, comentou.

A diretora do Museu Nacional de Belas Artes, Daniela Matera, ao lado da chefe do Departamento de Ciência, Arte e Cultura da Fundação Cecierj, Thelma Lopes Gardair, durante a abertura do seminário “Arte e Ciência: Diálogos Possíveis”, no MNBA. Foto: Flávio Carvalho
A diretora do Museu Nacional de Belas Artes, Daniela Matera, ressaltou a relevância do evento, antes de se iniciar a mesa “Sexismo e racismo nas Artes e nas Ciências”, que discutiu as barreiras enfrentadas pelas mulheres nesses campos. “Vale sublinhar o Museu como um espaço de provocação. E no que se refere ao feminino, sou a quarta diretora mulher, entre os 11 que tivemos. No campo da museologia, na formação acadêmica, sempre houve mais alunas mulheres do que alunos homens. Mas, durante muitos anos, eram os homens na liderança, mesmo sendo uma área de conhecimento majoritariamente feminina. Isso é um reflexo de uma sociedade que hoje está pedindo mudança. Por isso, encontros como esse são muito importantes. Não é só a questão do feminino, é a questão humana. Eu sou porque nós somos”, comentou.
A coordenadora do Setor Educativo do Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), Nayla Oliveira, falou sobre a necessária troca de saberes e experiências durante o evento. “Muito importante compartilharmos aqui, com essa plateia de mulheres, e pensar a articulação entre a arte e a ciência. E pontuar que os direitos femininos são fundamentais para que a gente possa seguir produzindo. Ser mulher é carregar o ventre do mundo no nosso corpo; é ter várias facetas de atuação, seja por meio da arte, da ciência, da educação ou das intersecções entre essas temáticas. E a gente precisa que os grandes parceiros institucionais, como a Fundação Cecierj, sigam nesse compromisso, levando a mais pessoas, não só o acesso à informação, mas a possibilidade de produzir seus próprios conhecimentos e expandir seus repertórios e visões de mundo”, declarou, completando ainda: “Coletivamente, uma pessoa dando a mão à outra, a gente vai muito longe. Mas quando temos a presença de grandes empresas e grandes instituições, a gente certamente alcança lugares ainda maiores”.

Elymara Cardoso, Carolina Assis, Márvila Araújo e Nayla Oliveira participam da mesa “Sexismo e racismo nas Artes e nas Ciências”, no seminário realizado no MNBA. Foto: Flávio Carvalho

Juliana Arruda, docente do Colégio Técnico da UFRRJ, acompanha as mesas de debate do seminário “Arte e Ciência: Diálogos Possíveis”, no MNBA. Foto: Flávio Carvalho
Juliana Arruda, professora do Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) assumiu para si mesma uma missão durante o seminário: absorver o máximo de informações para posteriormente transmitir às suas alunas. “Temos lá no colégio o projeto Mulheres e Meninas na Ciência: Baixada Presente. Esse simpósio é maravilhoso porque traz justamente o que a gente discute lá: que a universidade precisa ser humanizada, que a ciência precisa de arte e beleza. Muitos já abordam coisas ou vivências ruins… A gente precisa trazer para todas as mulheres uma forma de olhar para o mundo de modo a perceber o seu poder e manter a ciência e a arte articuladas”, afirmou.
Após as palestras, ao longo da tarde, o público pode participar de oficinas sobre memória e ancestralidade, práticas têxteis e cinema. Entre as atividades, “As mulheres que nos teceram”, com Simone Bibian, e “Os gestos inscrevem histórias ancestrais — Arte têxtil e memória”, com Thaes Arruda, desenvolveram conteúdos repletos de significados e novos olhares compartilhados.
Invisibilidade das contribuições femininas
Na programação do dia 21, que teve na condução da abertura, a diretora do Museu Ciência e Vida, da Cecierj, Mônica Dahmouche, a mesa “O efeito Matilda e o apagamento das mulheres nas Artes” abordou os mecanismos que contribuem para a invisibilidade das contribuições femininas. Ao longo do dia, a programação incluiu a oficina “De Volta para o Futuro – Perceber e Fazer Cinema com Elas” e uma visita mediada à exposição As Abolicionistas brasileiras.

Caroline Alciones, coordenadora do Cineclube Cecierj, marcou presença no seminário promovido pela Fundação Cecierj e MNBA. Foto: Flávio Carvalho
Caroline Alciones, coordenadora do Cineclube Cecierj, comentou que a primeira oficina concebida pela instituição já tratava da questão das mulheres. “Então quisemos trazer o tema para cá e também desenvolver uma parte prática, que chamamos, no Cineclube, de ‘fazer cinema’. Trabalhamos com uma técnica fundamental de animação. que é o flipbook ( um pequeno livro com uma sequência de desenhos que mudam um pouco de página para página e, com o movimento rápido das folhas, o desenho parece se movimentar). Conseguimos utilizar de uma forma bem objetiva e o resultado é cada um fazer o seu próprio desenho animado. Isso encanta a todos, adultos e crianças. Todos se sentem um pouco cineastas”, conta.

A palestrante Sônia Benites, guarani da aldeia Porto Lindo (MS), durante debate no seminário “Arte e Ciência: Diálogos Possíveis”, no Museu Nacional de Belas Artes. Foto: Flávio Carvalho
A palestrante Sônia Benites, guarani da aldeia Porto Lindo, em Japorã, Mato Grosso do Sul, falou a respeito de questões como as mais diversas formas de violência que afetam a condição feminina e, muitas vezes, nem são percebidas no cotidiano. “Ou são romantizadas. No parto, por exemplo, a gente valoriza aquela foto com o bebê, a mãe e o pai, sem se tocar que é um momento em que a mulher pode morrer. Outro dia, em um restaurante um bebê que estava com a mãe, batia à mesa. Coisa típica de criança. Mas foram tantos olhares atravessados que a mãe se constrangeu à mesa. Acho que todas nós mulheres temos muitas coisas a trocar e também, refletir. Porque a gente carrega a nossa vida, sabedoria e experiência, a partir da nossa própria caminhada”.

O diretor de Divulgação Científica da Fundação Cecierj, Luiz Bento, ao lado de Thelma Lopes Gardair e Andrea Fiães, também da Diretoria de Divulgação Científica, acompanhando as atividades do seminário “Arte e Ciência: Diálogos Possíveis”, no Museu Nacional de Belas Artes. Foto: Flávio Carvalho
Para Thelma Lopes, os debates e vivências compartilhados durante o seminário deixaram um saldo mais do que positivo. “O evento reuniu mulheres potentes que debateram temas fundamentais para construção de uma sociedade mais igualitária e plural. Mulheres com origens e trajetórias diversas dedicadas às Arte e/ou às Ciências, em palavras inteligentes, sensíveis e tocantes, que estimularam a reflexão sobre racismo, sexismo e apagamento da produção do conhecimento desenvolvido por mulheres. Além das palestras, as oficinas ofereceram um aporte mais prático que proporcionou a experimentação de técnicas e conteúdos ligados aos fazeres científico e artístico”, finalizou.





